Amputação
Amputação é brutal. Não encontrei alguém que não ficasse abalado ao ouvir dizer "meu pai perdeu a perna direita". Uns choraram um choro solto e doído, outros se encolheram, outros ficaram catatônicos. Amputação é brutal. Mas também pode ser libertadora. Brutalmente libertadora. Há uma semana vi meu pai na UTI e tive certeza que era a última vez que o via. A infecção estava vencendo. Saí dali de luto, abalada e aos prantos, apenas esperando o telefone tocar, o peso da morte sobre meus ombros e agarrado ao meu coração. Algumas horas depois, tocou mesmo, para me avisar que iam amputar a perna dele. Foi um misto de choque e alívio, de dor e paz, uma anestesia na minha angústia. Imediatamente eu entendi que era a última chance do meu pai viver. Lembrando da aparência dele naquela tarde, eu orei e pedi ao Senhor que se fosse para passar por mais isso e não sobreviver, que ele não chegasse à cirurgia. Foi uma longa noite, esperando sempre o telefone tocar. Chegou a manhã, e ele a...